Somos minúsculos pedaços de acontecimentos que se repetem continuamente na vida. Somos memórias. Somos esse filme velho que vemos passar todos os dias pelas ruas, calçadas, ônibus, casas. Somos pequenas partículas ambulantes procurando um destino. Somos instantes que se somam. Nascemos do moer e remoer dos momentos. E nascemos, assim, cada vez menores, cada vez mais insignificantes, cada vez mais moídos de nós mesmos, como a areia que virou pó quando antes era pedra, mas não menos necessária. É preciso buscar o que se busca e andar desse nosso jeito desalinhado para ser o que se é. Somos o mundo dando voltas, o coração batendo em cada quarto vazio, o olho chorando as tão cansadas e repetidas memórias, o passo que dança o que sente. Somos os instantes que construímos com os outros grãos que se encontram na vida.
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Aos 22
A cada dia consigo chegar mais perto do ser humano que quero ser, tenho tido mais facilidade em lidar com as minhas descobertas, com os meus problemas, porque hoje consigo estar cara a cara com o meu eu, sem me ludibriar, sem esconder de mim as minhas próprias falhas. Consigo ter uma compreensão maior dos motivos que me fazem ficar, que me fazem ser o que sou e estar onde estou, motivos esses que vão muito além de um momento.
E com tudo isso, venho descobrindo novos significados sobre o existir, resgatando sonhos, botando pra frente o que planejo. Sem escoras, sem desculpas, sem amarras. Tenho me libertado dia após dia.
Estou me dando a liberdade de fazer minhas escolhas, de me guiar pelas minhas reflexões e de deixar o caminho aberto e jogar limpo sempre! Porque não há nada que explique exatamente o existir, mas tem muitas coisas que valem a existência e a oportunidade de estar em paz de espírito, de bem com o mundo e expressando essa gratidão por estar viva!
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Tragédias Cotidianas
Eu não sou especialista em terrorismo, acidentes ambientais ou retaliações. Eu não quero e nem vou falar de política, de religião, da Bíblia ou do Alcorão. Nos últimos dias eu vi especialistas demais e compaixão de menos. Eu vi muita opinião e poucas mãos na massa. Tem gente se perguntando o porquê de tanta ganância, de tanta violência, de tanta tragédia, porque as tragédias não aconteceram só em Mariana e em Paris, se você sair na rua e andar um pouco, você vai ver que tem tragédia todos os dias.
Pra mim é uma tragédia ver um ser humano igualzinho a mim e a você, dormir na sarjeta, é uma tragédia ver crianças, iguais aos seus filhos sendo abandonadas todos os dias, ver um homem ou uma mulher, igual aos seus pais expostos na rua a qualquer tipo de violência, marginalizados e olhados com total desprezo. Você passa todos os dias pela tragédia e só você não quer ver, não quer entender, não quer se comover.
Sinceramente, não me espanta ver que uns e outros não se comoveram com nenhuma das duas situações, porque o que falta não é a mídia pra te dizer o que acontece no mundo o dia inteiro e todos os dias, o que falta é você abrir o seu coração para sentir como o outro, o que falta é um espelho pra você enxergar que você é igual a todo mundo, independente da sua cor, da sua crença, do país que você nasceu e da língua que você fala... Falta amor, sobra ignorância!
Ignorância essa que eu tenho visto de forma exacerbada nos comentários, nos posts, nas ruas, no olhar das pessoas. Todo mundo está mais preocupado com a imagem que vai passar aqui, todo mundo está preocupado com bens materiais, com lucros, com dinheiro.
Poucos estão preocupados em enxergar o outro como ser humano, em disseminar o bem e o amor ao próximo, poucos estão incomodados com a população que está sem água e com as famílias que perderam entes queridos. Não estão preocupados com o fanatismo, que mata, que fere, que dilacera famílias inteiras e inocentes que nem entendem o que é religião. Ninguém está interessado em saber as consequências de um acidente ambiental a longo prazo, não estão entendendo que dinheiro algum vai recuperar o que se perdeu e quem perdeu foi o rio, os animais e as pessoas que morreram. Não procuram saber que tem gente sendo bombardeada todos os dias em lugares que você nem imagina, por motivos absurdos.
Uma tragédia não anula a outra, existe dor e sofrimento estampado no nosso cotidiano, vai muito além daquilo que você vê no jornal. Então vamos guardar a prepotência, largar a mesquinharia e parar com essa "competição" ridícula entre tragédias... Propague o AMOR!
Pra mim é uma tragédia ver um ser humano igualzinho a mim e a você, dormir na sarjeta, é uma tragédia ver crianças, iguais aos seus filhos sendo abandonadas todos os dias, ver um homem ou uma mulher, igual aos seus pais expostos na rua a qualquer tipo de violência, marginalizados e olhados com total desprezo. Você passa todos os dias pela tragédia e só você não quer ver, não quer entender, não quer se comover.
Sinceramente, não me espanta ver que uns e outros não se comoveram com nenhuma das duas situações, porque o que falta não é a mídia pra te dizer o que acontece no mundo o dia inteiro e todos os dias, o que falta é você abrir o seu coração para sentir como o outro, o que falta é um espelho pra você enxergar que você é igual a todo mundo, independente da sua cor, da sua crença, do país que você nasceu e da língua que você fala... Falta amor, sobra ignorância!
Ignorância essa que eu tenho visto de forma exacerbada nos comentários, nos posts, nas ruas, no olhar das pessoas. Todo mundo está mais preocupado com a imagem que vai passar aqui, todo mundo está preocupado com bens materiais, com lucros, com dinheiro.
Poucos estão preocupados em enxergar o outro como ser humano, em disseminar o bem e o amor ao próximo, poucos estão incomodados com a população que está sem água e com as famílias que perderam entes queridos. Não estão preocupados com o fanatismo, que mata, que fere, que dilacera famílias inteiras e inocentes que nem entendem o que é religião. Ninguém está interessado em saber as consequências de um acidente ambiental a longo prazo, não estão entendendo que dinheiro algum vai recuperar o que se perdeu e quem perdeu foi o rio, os animais e as pessoas que morreram. Não procuram saber que tem gente sendo bombardeada todos os dias em lugares que você nem imagina, por motivos absurdos.
Uma tragédia não anula a outra, existe dor e sofrimento estampado no nosso cotidiano, vai muito além daquilo que você vê no jornal. Então vamos guardar a prepotência, largar a mesquinharia e parar com essa "competição" ridícula entre tragédias... Propague o AMOR!
domingo, 18 de outubro de 2015
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Pensando alto #1
Eu varei a madrugada pensando no quanto tudo não faz sentido e de repente essas estradas que a gente vem caminhando, não deem em lugar algum. Imaginei um mundo melhor, realmente sonhei acordada, porque diante de alguns fatos a gente começa a se questionar se ainda tem jeito de melhorar.
É que eu pensei muito no que a vida me deu e o quanto ela tem sido maravilhosa, por não tirar e não me pedir nada em troca. Eu fiquei pensando no quanto Deus está presente, nas pequenas coisas, nos momentos inquestionáveis e nos dias mais difíceis, principalmente neles. E aí eu percebi que tudo acontece de acordo com o que você oferece pro mundo. Se você é bom, o universo te retribui de uma forma deliciosa, tão "assim" que você até pensa: O que eu fiz para merecer?
É que eu pensei muito no que a vida me deu e o quanto ela tem sido maravilhosa, por não tirar e não me pedir nada em troca. Eu fiquei pensando no quanto Deus está presente, nas pequenas coisas, nos momentos inquestionáveis e nos dias mais difíceis, principalmente neles. E aí eu percebi que tudo acontece de acordo com o que você oferece pro mundo. Se você é bom, o universo te retribui de uma forma deliciosa, tão "assim" que você até pensa: O que eu fiz para merecer?
Muito melhor e mais importante
Mais importante do que as impressões que tiro da vida é o que ela imprime em mim.
Mais intrigante do que os questionamentos que faço à ela, são as questões que ela soluciona sem que eu penhore meu sangue para resolver.
Mais interessante do que viver ao redor de pessoas, é viver rodeado delas e de tudo o há de bom em comunicar.
Melhor do que receber amor, é poder compartilhar sem neuras, sem achismos ou ''pagamentos''.
Viver um amor real é muito mais valioso do que viver um amor idealizado.
Ainda mais importante do que amar e ser amado, compartilhar, comunicar, assistir, ser visto e lembrado e estar rodeado de pessoas, é sobreviver ao turbilhão de sentimentos diários e poder apesar de tudo, continuar vivo.
Mais intrigante do que os questionamentos que faço à ela, são as questões que ela soluciona sem que eu penhore meu sangue para resolver.
Mais interessante do que viver ao redor de pessoas, é viver rodeado delas e de tudo o há de bom em comunicar.
Melhor do que receber amor, é poder compartilhar sem neuras, sem achismos ou ''pagamentos''.
Viver um amor real é muito mais valioso do que viver um amor idealizado.
Ainda mais importante do que amar e ser amado, compartilhar, comunicar, assistir, ser visto e lembrado e estar rodeado de pessoas, é sobreviver ao turbilhão de sentimentos diários e poder apesar de tudo, continuar vivo.
sábado, 29 de agosto de 2015
Mais paz de espírito, por favor!
De repente você descobre que estar em paz consigo é de fato mais importante do que estar em paz com o mundo inteiro. Não é egoísmo, te explico... Estar em paz com você mesmo, estar de bem com a sua própria vida, com as suas escolhas, com o andar da sua carruagem, te faz um bem enorme e isso se reflete na sua relação com o universo.
Elevar o espírito e não tombar diante de alguns percalços, fazem o coração estremecer docemente. Você está vivendo em estado poético, mesmo quando tudo parece uma "tragédia".
Aprender a conviver com a ideia de que algumas coisas podem dar errado, faz bem, é de graça e você pode começar a partir de AGORA! Entender que o amor é o melhor sentimento, não dói e se algum dia doeu, é porque não era amor, era qualquer outra coisa.
É que ultimamente eu ando com tanta preguiça de lidar com gente que só cobra, só pede, só vem pra sugar as energias e tumultuar o caminho.É que a gente cansa de conviver com essa pressão, com essa obrigatoriedade.
Porque na verdade a gente nasceu pra ser livre, pra fazer o que tem vontade, pra viver perto ou longe, pra ir e voltar a hora que quiser, pra se ter pessoas que partilhem da mesma ideia.
Elevar o espírito e não tombar diante de alguns percalços, fazem o coração estremecer docemente. Você está vivendo em estado poético, mesmo quando tudo parece uma "tragédia".
Aprender a conviver com a ideia de que algumas coisas podem dar errado, faz bem, é de graça e você pode começar a partir de AGORA! Entender que o amor é o melhor sentimento, não dói e se algum dia doeu, é porque não era amor, era qualquer outra coisa.
É que ultimamente eu ando com tanta preguiça de lidar com gente que só cobra, só pede, só vem pra sugar as energias e tumultuar o caminho.É que a gente cansa de conviver com essa pressão, com essa obrigatoriedade.
Porque na verdade a gente nasceu pra ser livre, pra fazer o que tem vontade, pra viver perto ou longe, pra ir e voltar a hora que quiser, pra se ter pessoas que partilhem da mesma ideia.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
Somos Instantes
Somos instantes, insolúveis, inquestionáveis
Vinte e quatro horas por dia, pensando, vibrando, vivendo
Reminiscências que nos fazem compreender a vida
Que chora, que grita, que destila veneno e também nos convida a fazer amor
Ser o que é, ser o que quer, fazer o que quiser
O desejo, o delírio, o desatino, o insano
Humano, carne, osso, corpo, coração
Devotar ao destino o amor
Pregar a felicidade, viver de instintos, apertar os cintos, segurar pela mão
Sentir borboletas no estômago, frio na barriga, suor gelado
Ficar do lado, dormir abraçado
Agonizar de amor, folgar a dor
Viver os instantes restantes, que correm e se fazem infindáveis
Que congelam a memória, que compõem a nossa história
Somos instantes poéticos, patéticos, abreviados
E mesmo instáveis, complexos e descontrolados
O que queremos é viver, mesmo que por um instante
segunda-feira, 25 de maio de 2015
Não sinto falta de não sentir...
Te olhando aqui, de pertinho, dentro dos seus braços, encostada no seu peito, penso: O que mais a vida poderia me dar? Muitas coisas, porém não acredito que me daria alguém melhor que você, não me daria outro amor tão amigo, tão cúmplice e tão real quanto esse. E hoje, meu desejo é o mesmo de todos os dias: "Pra nós todo o amor do mundo!".
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Wild
A história começa quando Cheryl perde a mãe repentinamente para o câncer, e consequentemente sua vida entra em um efeito dominó, a família se distancia e além disso o casamento desmorona. Ela se vê perdida diante de tantos acontecimentos. No fundo do poço, ela inconsequentemente se entrega as drogas, ao sexo e uma vida completamente devassada.
Aos 26 anos, depois de ter sofrido essa avalanche e por não ver mais nenhum sentido em nada do que estava vivendo, Cheryl decide colocar o pé na estrada e enfrentar a trilha Pacific Crest, sem experiência alguma nisto, ela encarou cerca de 4 meses de caminhada, um total de 1.700 quilômetros, sem nada a perder.
Pelo contrário, em todos os momentos, sem saber Cheryl estava a caminho da libertação não só dos problemas, mas da libertação de uma vida de sofrimento, de erros e de fantasmas do passado que a mantinham presa. Cheryl me tocou do início ao fim. Não pelas cenas de dor ou de extremo cansaço físico e mental. Mas por sua maneira tão forte de encarar a caminhada, mesmo quando não havia mais possibilidades de seguir, ela achou em meio aos escombros de seu ser, uma forma de superar as dificuldades. E dia após dia, a cada momento, sem que percebesse, Cheryl estava passando por um processo de transformação pessoal, através de sua entrega e da aceitação diante de sua condição. Através de tudo isso e com tudo isso, Cheryl conseguiu enxergar que aquele caminho foi o melhor caminho para que conseguisse tocar sua vida em frente e esquecer tudo que a angustiava ou que um dia fez da vida dela algo devastador, porque no final da trilha conseguiu finalmente encontrar consigo mesma e descobrir o que havia de melhor em seu interior.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
A vida é como andar de bicicleta
Certo dia fui andar de bicicleta com uma amiga na Lagoa. Durante o passeio, em um momento de descuido levei um tombo. Não me machuquei, mas tomei um susto. Um desconhecido, junto com minha amiga me ajudaram a levantar, a bater a poeira, e ela especialmente me ajudou a consertar a bicicleta e seguir a trilha. Pra você que lê, pode parecer uma história irrelevante, e eu até concordaria com você, não fosse o aprendizado que tirei deste dia.
E vou lhe explicar: Viver é mesmo como andar de bicicleta e equilíbrio foi o que me faltou naquele momento, e as vezes me falta para saber lidar com certas situações que a vida impõem. Nunca se sabe em que curva você vai bambear e cair, em que momento você vai se machucar, nunca se sabe, porque os acasos permeiam nossa vida. E é nessas horas que você consegue enxergar quem está realmente do seu lado, quem de fato deseja te ver pedalando pela trilha da vida sem sustos e dores.
Assim como andar de bicicleta, numa crise a solução não é se queixar nem ficar inerte, a solução é buscar equilíbrio. E se cair, força para levantar e continuar pedalando, encostar a bicicleta e parar... Jamais!
quarta-feira, 1 de abril de 2015
Aos amigos
Sempre fui de poucas amizades, mas sempre tive bons amigos. Amigos esses que nunca se esconderam quando me viram na pior. Que sempre me ajudaram a dividir os pesos que a vida, por algumas vezes me deu. Amigos que não aparecem na minha porta só quando tem festa. Amigos que choram e riem junto na mesma intensidade. Que ajudaram a tirar a pedra do sapato e quando não consegui tirá-la, andaram descalço comigo.
Tive uns que me dói o peito só de lembrar que não estão mais tão perto, e que falta me fazem. Tenho outros, que por mais que o tempo e a opção por caminhos diferentes, tenha nos afastado, sigo com eles no coração e sem dúvida, com o mesmo amor. Tem aqueles que a gente sempre quer falar, puxar aquela conversa, mas você deixa pra amanhã e depois de amanhã você esquece e nos perdemos de vista. Tenho os de anos, que parece que nascemos juntos e que independente de qualquer coisa, estão aqui. Tem aqueles que são recentes, mas parece que a conexão é de anos.
Entre tantos outros tipos que tive e ainda tenho, entre tantos nomes que poderia citar aqui, deixo à vocês o exercício de pensar nos seus verdadeiros companheiros de estrada. Trazer pra perto quem está ausente, lembrar com amor quem a vida nos tirou. Reconciliar-se com quem vale a pena ter ao lado. Descobrir um novo amigo naquela pessoa que está sempre ali.
Ao escrever isso, me veio a memória os amigos que já tive e os que tenho... E nossa, que saudade de vocês!
sexta-feira, 27 de março de 2015
A gente morre um pouco quando o amor acaba
Todo mundo já passou por isso. A gente dorme dois, acorda um. Compartilha a vida com alguém e de um dia para o outro resta apenas o nada. É como uma morte súbita. A dor de perder um amor é dor de morte. Dói o corpo, o coração fica espremido, a cabeça não funciona. A pessoa vai embora e leva seu sono, sua fome, sua alegria. Como se a vida repentinamente perdesse o sabor e o sentido.
A gente mergulha numa profunda confusão sem entender até mesmo quem é, quando olha para os lados e se percebe só. Fica difícil andar pelos mesmos lugares, entrar em casa e ver tudo vazio de amor. Fica tudo tão estéril do 'nós'. Tudo tão amortecido e silencioso porque não somos mais nós dois.
Eu me senti assim todas as vezes que um amor se foi. Não é somente saudade da pessoa. A gente sente falta até do que nem imagina. Senti saudade de todos os livros que um deles levou embora e que eu nem tive tempo de ler. Eles estavam lá o tempo todo e eu achava que teria o tempo todo para ler. É muito injusto não saber quanto dura um amor. É golpe baixo que ele fique moribundo quando ainda respira dentro de nós. Vai o amor e vão-se os livros não lidos.
Também já senti falta dos quadros. Sei que eles gostavam tanto dessas paredes e fiquei com pena deles talvez meio desconfortáveis em paredes desconhecidas, em paredes que talvez nem estivessem felizes de abraçá-los como as minhas paredes.
Desisti de um programa de TV porque até o apresentador me despertava melancolia. E a única vez que sintonizei o canal depois que a razão do meu afeto foi embora, ele travou, tropeçou nas palavras, a imagem ia e voltava, até que desapareceu. Percebi que ele não estava entendendo a ausência da minha agora ex-metade. Dei um tempo para ele se conformar que de agora em diante seríamos só eu e ele, se ele assim quisesse.
E coitada de uma cafeteira que compramos numa viagem –eu e um desses amores que ficaram pelo tempo. Mal sabia dos planos que a gente tinha para ela. Eu imaginava ele fumando um cigarro, encostado na janela, segurando a xícara, sentindo o sol batendo no corpo, enquanto eu passeava descalça pela casa, com a toalha na cabeça, comendo meu iogurte de frutas vermelhas. Ela ficou linda na cozinha, com aquelas cápsulas coloridas. Mas no fim ela me despertou mais ódio do que qualquer outra coisa. E um dia eu simplesmente me livrei dela –depois que já tinha me livrado do amor.
A história pode ser nova, mas o fim de um amor é quase sempre um filme velho. A gente fica no meio da sala parado sem saber aonde ir ou o que fazer e quase pode sentir os móveis nos olhando com pena. A mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê, do mesmo jeitinho que Vinícius descreve naquele poema que eu repeti tantas vezes quando éramos felizes.
A cama incomoda, ela fica grande de repente, lembra sempre da nossa profunda solidão instantânea. Os lençóis, os travesseiros, o edredom, tudo parece impregnado de cheiro e de lembrança, mesmo que a gente troque a roupa de cama duas vezes por semana. Acho que são eles na madrugada perguntando onde está o fulano. Quem dorme? É assim durante as primeiras semanas, mas aos poucos a tristeza vai dando lugar ao conformismo e as noites passam a ser menos longas e menos sádicas.
Outra vez mudei todos os meus caminhos, abandonei restaurantes, troquei até de faxineira. Gostava das ruas arborizadas, da luz bonita que refletia na praça pela manhã. Não quero que nada me lembre o que acabou de acabar, muito menos uma coalhada seca. De azeda já bastava a vida naquele momento.
É sempre um luto. Sentimentos ruins nos invadem e depois passa. A gente se derrama de amor porque acredita que é muito amor. Às vezes é mesmo. Mas isso também passa. O duro é atravessar esse deserto de sentimento, ouvindo o silêncio das paredes.
Ouço essas músicas cafonas que me afundam cada dia um pouco mais, cultivo o luto, como se o fim de um amor merecesse uma homenagem póstuma. Mas é só tristeza mesmo, só dor de cotovelo, só uma profunda incapacidade de aceitar que alguém não me quer. A gente morre um pouco quando o amor acaba. Vai até o fundo do poço. O sofrimento de amor é clichê. Tem dor, tem drama. Dói o coração, mas dói mais o orgulho ferido do desamor.
E se do chão ninguém passa, de orgulho ferido ninguém morre. Próximo.
Mariliz P. Jorge
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